terça-feira, 18 de novembro de 2008          
 
    O ministro dos Assuntos Parlamentares exortou hoje a presidente do PSD a esclarecer rapidamente a sua ideia de suspender a democracia por seis meses, alegando que existem "fundadas dúvidas" sobre o que pensa do regime democrático.
    No final de um almoço promovido pela Câmara de Comércio Luso-Americana, Manuela Ferreira Leite (fotos) perguntou, a propósito da reforma do sistema de justiça, se "não é bom haver seis meses sem democracia" para "pôr tudo na ordem".

    Em reacção a estas palavras da líder dos sociais-democratas, Augusto Santos Silva considerou estar perante "declarações gravíssimas".

    "Porque não pode haver nenhuma espécie de dúvida sobre as nossas convicções, exorto a drª Manuela Ferreira Leite a esclarecer rapidamente o que quis dizer com aquelas afirmações".

    Na perspectiva do membro do Governo, esta controvérsia em torno das declarações da presidente do PSD "é tanto mais grave quanto a drª Manuela Ferreira Leite sustentou a tese de que não deveria ser a comunicação social a seleccionar o que transmite".

    "O mínimo que se pode dizer é que hoje, em Portugal, existem fundadas dúvidas sobre o que a drª Ferreira Leite pensa e sente acerca da democracia", acrescentou.

    Para o ministro dos Assuntos Parlamentares, não chega para encerrar este caso sustentar-se a tese de que as palavras de Manuela Ferreira Leite foram proferidas com ironia.

    "Se, como o PSD está a dizer, as afirmações da sua presidente foram irónicas, então convém corrigi-las. Não se pode brincar com a democracia", porque "Portugal viveu em ditadura tempo demais", contrapôs.

    Por estas razões, segundo Santos Silva, "nenhum dirigente político pode deixar qualquer sombra de dúvida sobre a sua atitude face à democracia".


 
Alberto Martins (PS) acusa líder do PSD de revelar ausência de cultura democrática e cívica
        
    O PS acusou hoje a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, de revelar ausência de cultura democrática e cívica quando pergunta se não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem no país.

    Falando no final de um almoço promovido pela Câmara de Comércio Luso-Americana, a presidente do PSD, a propósito da reforma do sistema de justiça, perguntou se "não é bom haver seis meses sem democracia" para "pôr tudo na ordem".

    Em reacção a estas declarações, o presidente do Grupo Parlamentar do PS, Alberto Martins, manifestou o "repúdio veemente" dos socialistas, considerando que as palavras de Manuela Ferreira leite "são anti-democráticas, reveladoras de uma cultura autoritária e de ausência de cultura cívica".

    "A democracia não pode ter intervalos de seis meses. O contrário da democracia é a ditadura - e só quem não sabe o que foi a ditadura pode admitir intervalos lúcidos para a democracia", contrapôs o líder da bancada socialista.

    De acordo com Alberto Martins, estas declarações "inaceitáveis" da líder social-democrata surgem na sequência "de atitudes anteriores que têm já um traço muito significativo".

    "A suspensão de um deputado [do PND] na Madeira, as declarações xenófobas sobre ucranianos e cabo-verdianos, a insensibilidade social com o aumento do rendimento mínimo e silêncio cúmplice com o Banco Português de Negócios são traços distintivos de uma atitude não democrática e não responsável por parte da líder do PSD", acusou Alberto Martins.

    Confrontado com a hipótese de Manuela Ferreira Leite estar apenas a usar a ironia quando se referiu a um hipotético período de seis meses sem democracia, o presidente do Grupo Parlamentar do PS reiterou as suas críticas.

    "Não há ironia quando se apela a uma ideia de interrupção da democracia. A democracia custou muito a construir aos portugueses, é uma ética e uma técnica, uma forma de Governo e um conjunto de valores - e um dos valores essenciais é o da liberdade", respondeu.

 
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PSD: Governo e PS pedem a Ferreira Leite que esclareça rapidamente afirmações sobre democracia