sexta-feira, 15 de agosto de 2008          
 
    O jornalista Pedro Garcias, o primeiro candidato assumido à direcção da Casa do Douro, acredita que o organismo está “próximo do abismo” e quer recentrar o seu trabalho na defesa dos viticultores.
    “A Casa do Douro tem de ser uma associação de viticultores, não uma empresa de compra e venda de vinhos”, defende o jornalista, também viticultor, que anunciou em entrevista à agência Lusa a sua candidatura à direcção da instituição, que reúne 35 mil viticultores.
 
    Pedro Garcias, 44 anos, nasceu em Alijó, reside em Vila Real e possui vinhas em Vila Nova de Foz Côa, actividade que concilia com o trabalho no jornal “Público”, onde foi editor do suplemento “Fugas”.
 
    Depois de 19 anos de jornalismo, de escrever e denunciar “situações más” sobre a região do Douro, o jornalista diz que se sentiu “também na obrigação de intervir”.
 
    “Não tinha o direito de ficar passivamente a assistir ao fim da Casa do Douro por birras de pessoas, dívidas acumuladas e guerrilhas institucionais que só prejudicam os viticultores”, afirmou hoje à Agência Lusa.
 
    Pedro Garcias quer agregar à sua volta uma equipa de pessoas novas, apartidária e que não estejam ligadas à actual gestão da instituição duriense, de forma a “criar uma nova dinâmica e condições para resolver os graves problemas da Casa do Douro”.
 
    A prioridade desta equipa será, segundo o candidato, o “saneamento financeiro” do organismo, que actualmente possui uma dívida de cerca de 100 milhões de euros ao Estado e à banca.
 
    A situação de fragilidade da instituição foi originada, na opinião de Pedro Garcias, pelo “erro colossal” em 1990, com a compra de 40 por cento da Real Companhia Velha, que custou o equivalente a mais de 67 milhões de euros, por anos seguidos de “má gestão” e pela retirada de funções públicas por parte do Governo, em favor dos Institutos de Vinho do Douro e Porto (IVDP).
 
    “A Casa do Douro é uma das maiores associações do país, só que não pode fazer nada também porque não tem criado condições para resolver essa dívida devido ao clima de guerrilha institucional com o IVDP e o Governo”, afirmou.
 
    O objectivo de Pedro Garcias é criar uma Casa do Douro “forte, sem dívidas, saneada, para lutar de igual para igual com o seu parceiro, os exportadores”.
 
    O candidato deverá ter como opositor nestas eleições o actual presidente da instituição, Manuel António Santos, que ocupa o cargo desde 1999.
 
    “Os viticultores deverão ser colocados perante dois projectos distintos. O da actual direcção, que quer a Casa do Douro no mundo dos negócios, mantendo-se na Real Companhia Velha ou participando em novas empresas, e o meu projecto, que pretende tirar a instituição dos negócios e focalizar-se na defesa dos viticultores, como associação de apoio técnico, de investigação e social”, explicou.
 
    Pedro Garcias considera que o saneamento financeiro da instituição poderá ser feito através da venda dos vinhos penhorados, de forma controlada pelo Governo e sem inundar o mercado, e pela aposta em novas atribuições como a investigação, o apoio técnico e social.
 
    Na sua opinião, o organismo deveria ajudar os viticultores na elaboração de projectos para a reestruturação das vinhas ou para a candidatura aos apoios agro-ambientais.
 
    “Há todo um conjunto de acções que geram receitas e que poderiam ser feitas em benefício dos viticultores”, salientou o responsável.
 
    Pedro Garcias alerta para a necessidade de a instituição “arrepiar caminho” rapidamente ou então corre o risco de lhe ser retirado o estatuto de associação pública por parte do Governo, o que resultará no fim da inscrição obrigatória e “numa debandada geral” por parte dos viticultores.
 
    “Ninguém quer ser sócio de uma associação falida e que não defende os seus interesses”, frisou.
 
    As eleições para a direcção do organismo representativo de 35 mil viticultores deverão decorrer após as vindimas, em Outubro ou Novembro.
 
    A direcção do organismo é eleita pelos 125 elementos que compõem o Conselho Regional de Viticultores.
 
    
       ** Texto de Paula Lima, da Agência Lusa e Fotos de Fernando Veludo **
 
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CASA DO DOURO: Jornalista Pedro Garcias candidata-se para “salvar do abismo” a associação de viticultores