quarta-feira, 19 de novembro de 2008          
 
    Responsáveis de stands automóveis de todo o país reportaram hoje à Lusa "decréscimos acentuados" nas vendas nos últimos meses, na ordem dos 20 a 50 por cento, atribuídos sobretudo à cada vez mais difícil obtenção de crédito bancário.
    "As pessoas já não tinham dinheiro, mas tinham crédito. Agora nem isso, porque tem havido um corte radical por parte de todas as financeiras e bancos e, créditos que até há pouco seria impensável serem recusados, são-no", afirmou o gerente da AMCCar, do Porto.

    Segundo afirmou à agência Lusa Adriel Cabral, "o negócio tem corrido muito mal" e, se as vendas nos primeiros cinco meses do ano "até foram boas", tendo por base o padrão dos últimos anos, "desde Junho baixaram drasticamente".

    "Tenho uma quebra de mais de 50 por cento em todos os segmentos", afirmou o responsável do stand de usados, para quem a situação foi desencadeada pelo aumento do preço dos combustíveis e, entretanto, agravada pela falta de crédito.

    "Agora só compra quem tem dinheiro e são poucos os que o têm", disse.

    De acordo com Adriel Cabral, actualmente a decisão de compra de um carro novo é adiada o mais possível e "as pessoas acabam por reparar o veículo antigo para ver se aguenta mais um ano".

    Na A. R. Automóveis, de Leiria, já houve casos em que particulares apresentaram para venda os seus automóveis para posteriormente adquirirem um de valor inferior, realizando dinheiro com o negócio.

    "O decréscimo das vendas está a ser acentuado já de há meses largos para cá", afirmou à Lusa Armando Reis, daquele stand de automóveis novos e usados, acrescentando que o mês de Novembro "está a ser péssimo em todos os segmentos".

    Segundo referiu, "não há pessoas para possíveis negócios e os poucos que se conseguem são a crédito, sendo que os créditos são cada vez mais recusados".

    Já Pedro Almeida, da Alfaguima, de Braga, afirma que as vendas se têm "degradado bastante", mas sustenta que os clientes que vão surgindo "vêm com a ideia de pagar a pronto".

    "Só mesmo quem tem dinheiro é que compra, porque o crédito deixou de existir. E estão a recorrer a carros o mais barato possível, de preferência até 8.000 euros", refere.

 
Crise do sector alastra à Europa e multiplicam-se pedidos de ajudas
        
 
    A crise financeira e os problemas do sector automóvel nos EUA estão a alastrar-se à Europa, com vários fabricantes a reduzirem as produções e as expectativas de vendas e com cada vez mais vozes a apelarem a ajudas governamentais.

    No início de Outubro, o gigante norte-americano General Motors (GM) anunciou a suspensão da produção em todas as unidades da Europa, através da Opel, e outros fabricantes automóveis como a Volkswagen, a BMW, a Daimler e Ford reduziram também a produção, tanto na Alemanha como noutros países.

    Os resultados do terceiro trimestre mostram que as vendas da Opel na Europa caíram 12 por cento, face a igual período de 2007, as da francesa Renault baixaram 2,2 por cento.

    A italiana Fiat reviu em baixa a sua expectativas de vendas para 2009, antecipando agora uma quebra de 20 por cento das vendas. A Daimler, que detém a Mercedes, também reportou quedas das receitas e cortou as previsões de lucro para um conjunto do ano.

    Em Espanha, a Seat, que pertence à Volkswagen, já anunciou que irá produzir menos 21 mil veículos até ao final do ano, estando em causa 4.700 postos de trabalho.

    Com o agudizar das dificuldades financeiras nos EUA na indústria automóvel, fruto das restrições de liquidez e da queda da procura, com os três maiores fabricantes General Motors, Ford e a Chrysler a pedirem ajudas ao governo federal, a Europa não parece conseguir escapar à crise.

    Altos responsáveis da Opel estiveram reunidos na segunda-feira, em Berlim, com a chanceler Ângela Merkel, para debater a hipótese de um aval do governo alemão à empresa.

    Merkel prometeu uma resposta do executivo antes do Natal, mas pôs a condição de que qualquer ajuda à Opel reverta apenas para a empresa na Alemanha, e não para a General Motors nos EUA, que está em situação particularmente difícil.

    A 11 de Novembro, governo alemão rejeitou apoiar um programa de ajuda de 40 mil milhões de euros solicitado pela Opel para o conjunto do sector automóvel germânico, por considerar "suficientes" as medidas de apoio à indústria automóvel aprovadas anteriormente.

    Esta semana, em entrevista ao jornal Bild, o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, propôs soluções à escala europeia para apoiar a indústria automóvel, afirmando que se os EUA investirem dezenas de mil milhões de dólares para salvar a sua indústria automóvel, os europeus "não podem ficar parados e abandonar os fabricantes locais à sua sorte".

    Segundo relatos da imprensa alemã, a Opel necessita, no pior dos casos, de um aval de 1,8 mil milhões de euros para garantir a sua liquidez a médio prazo.

    Para fazer face à quebra da procura a administração da Opel decidiu construir menos 40 mil veículos até ao fim do ano, evitando que haja demasiada oferta em armazém, o que obrigaria a baixar o preço dos carros novos.

    A Opel de Saragoça, em Espanha, que absorveu a sua congénere portuguesa da Azambuja, entretanto encerrada, também já suspendeu a produção por algum tempo.

    Portugal também não é excepção e a filial portuguesa da Volkswagen tem prevista uma paragem total da sua produção a partir de 17 de Dezembro até ao final do ano.

 
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CRISE/AUTOMÓVEL: Stands com quebras de 20% a 50% nas vendas devido sobretudo à falta de crédito