O presidente da Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo, António Edmundo, considerou que "foi com algum desalento" que viu a barragem de Quintã de Pêro Martins, no rio Côa, excluída do plano nacional de barragens. O plano anunciado quinta-feira pelo Governo para cumprir o objectivo de aumentar a produção de electricidade em Portugal até 7.000 Megawatts e elevar o aproveitamento hidrológico para 70 por cento da capacidade do país, integra dez barragens, sendo que uma delas está prevista para Girabolhos, no concelho de Seia, distrito da Guarda.
António Edmundo, o autarca de Figueira de Castelo Rodrigo, que nos últimos dois anos tem "batalhado" pela construção da barragem de Quintã de Pêro Martins, no rio Côa, admitiu hoje à Agência Lusa que foi com "desalento" que verificou que o empreendimento "não foi, ainda, contemplado no plano".
Apesar da situação, o autarca social-democrata revela que alimenta a esperança "que em breve venha a ser feito um concurso em que esta barragem tenha a sua viabilidade e construção assegurada".
Caso a construção da barragem de Pêro Martins se efective, considera que "era o reparar de um erro histórico", aludindo ao abandono do projecto da barragem do Côa que foi parada por causa da descoberta das gravuras rupestres.
"É apontado por muitos que uma das medidas mais negativas do Portugal democrático foi o primado das gravuras sobre a barragem", disse.
Em sua opinião "em 1996 não houve discernimento nem racionalidade para se olhar para a questão cultural das gravuras e para a questão económica da barragem e, porventura, logo nessa data, poder-se-ia ter equacionado a construção da barragem de Quintã [de Pêro Martins], preservando as gravuras".
"Se tivesse havido mais razão e menos emoção, porventura, hoje teríamos Parque Arqueológico do Vale do Côa e barragem [de Quintã de Pêro Martins, a cerca de dez quilómetros de distância da foz do rio Côa]", assinala.
Para o autarca de Figueira de Castelo Rodrigo (foto), a construção da barragem no seu concelho, permitiria "reparar o erro de as gravuras de Foz Côa terem sido, apenas, e só, uma bandeira eleitoral em que ninguém quis pesar os argumentos racionais".
Salienta que se o Governo da altura - liderado por António Guterres - tivesse optado pela sua construção "hoje estaria feita e teríamos cumprido o protocolo de Quioto".
A construção projectada para o rio Côa, a montante do local onde foram descobertas as gravuras, "pode inundar terrenos à vontade, porque não causa problemas às populações, antes pelo contrário, valoriza as propriedades agrícolas", evidenciou.
Segundo o autarca social-democrata, a edificação do empreendimento num local que pertence, numa das margens, à freguesia de Vale de Afonsinho (Figueira de Castelo Rodrigo) e, na outra, a Cidadelhe (Pinhel), permitiria "manter água, porque é uma zona onde [no Verão] o rio Côa quase seca".
"A sua construção era importante para termos uma reserva estratégica de água a norte do distrito da Guarda, que é uma zona muito seca", salienta.
António Edmundo considera, ainda, que o projecto seria implementado "num rio que é só nosso [nasce próximo da localidade de Fóios, Sabugal, e desagua no rio Douro, em Vila Nova de Foz Côa], regularizaria o seu leito e daria novos usos ao rio Côa, pois permitiria a prática de actividades lúdicas, de regadio e a exploração hidroeléctrica".
Destacou que neste caso, "a questão das gravuras não se coloca, porque a barragem está projectada para ser construída a montante do local onde se encontram e, no meu entender, daria uma componente lúdica e possibilitaria a harmonização do clima durante o Verão".
A barragem consta de um estudo efectuado pela Universidade de Coimbra que prevê um investimento de cerca de 450 milhões de euros e uma capacidade instalada de produção de energia eléctrica de 126 Megawatts, referiu.
Caso o projecto seja concretizado, o edil de Figueira de Castelo Rodrigo considera tratar-se "do maior investimento público, ou privado, que se estima, venha a ser realizado alguma vez na região".
Adiantou que na fase de construção, estimada em seis anos, seriam criados 600 postos de trabalho directos.