sábado, 31 de janeiro de 2009          
 
    A agricultura transmontana oferece durante boa parte do ano trabalho à jeira, que mesmo em tempo de crise e desemprego continua a ser sinónimo de rendimento e até de ganhos extra para alguns.
    Em apenas alguma semanas um casal consegue ganhar mais de dois mil euros, valores idênticos aos que atraem alguns transmontanos para a nova emigração das "contratas" sazonais em outras campanhas agrícolas, nomeadamente da vizinha Espanha.
    Nos concelhos transmontanos ribeirinhos do Douro Internacional a variedade de culturas proporciona muitas jeiras, trabalho agrícola pago ao dia, 40 euros aos homens e 30 às mulheres.
O que evidencia discriminação tem para Margarida Manta a justificação cultural de que são os homens que fazem os trabalhos mais forçados de carregar, cavar, varejar ou podar.
Margarida é auxiliar numa escola de Freixo de Espada à Cinta, mas aproveita todas as jeiras que pode nos fins-de-semana.
"É uma ajuda" que não dispensa.
Já a jovem Soraia Pelicano, de 26 anos, faz parte das estatísticas que colocam o concelho entre os mais elevados índices de desemprego, mas consegue ajudar o marido e até "poupar" com algumas jeiras que dá na época da apanha.
Os números oficiais indicam que cerca de 15 por cento dos 1460 habitantes que constituem a população activa deste concelho, com menos de quatro mil pessoas, estão desempregados, o que corresponde a pouco mais de duzentas pessoas inscritas no Centro de Emprego.
O marido de Soraia, Carlos Pires não está na lista, nem tem um emprego convencional, mas desde os 15 anos que sempre trabalhou à jeira.
Tem trabalho todo o ano e por isso ganha menos do que os jeireiros esporádicos, à volta de 27 euros e meio.
Não tem regalias sociais, férias ou subsídios, mas ainda assim nunca pensou em emigrar como fez Manuel Pintado noutros tempos, quando se "andava a trabalhar pela côdea" (pão).
Do trabalho em França conseguiu juntar dinheiro para comprar terras e esquecer o tempo em que "a vila era de uma dúzia de ricos e os pobres trabalhavam de sol a sol".
Fernando Barbeira começou a trabalhar menino, com sete anos, e era a sete escudos que lhe pagavam a jeira.
Fez este trabalho toda a vida e ainda hoje, já reformado, aos 66 anos, continua a ir à jeira para quem o chama.
"Hoje é tudo diferente: vão de carro, se trabalharem uma hora pagam-lhes, nós não. Fazíamos duas horas de caminho a pé e se calhava a chover vínhamos embora sem ganhar nada", contaram.
Os últimos dias não têm deixado ninguém trabalhar nas terras, mas com a excepção das contrariedades climatéricas, "se quiserem trabalhar, aqui ninguém passa fome", garantiu à Lusa um dos maiores proprietários agrícolas do concelho, Manuel Caldeira.
Sempre esteve ligado à construção civil e lançou-se na agricultura "numa brincadeira" a tentar comprar uma horta para a mulher. Em pouco mais de vinte anos juntou 80 hectares de vinha, 35 de olival e 17 de amendoal.
Factura cerca de 250 mil euros por ano e garante que o concelho consegue dar "90 a 120 dias" de jeiras seguidos, sobretudo entre Setembro e Dezembro, com a apanha da amêndoa, azeitona e vindima.
Para os homens sobram depois mais jeiras a podar, a cavar, enquanto que as mulheres, ainda que em menor número, se ocupam em afazeres como a apanha das vides nas vinhas podadas.
Manuel Caldeira é uma excepção nesta zona com 12 trabalhadores "fixos" a quem paga "todos os direito, quer chova, quer faça sol".
Nas campanhas recruta mais cerca de 20 pessoas à jeira.
Quem acredita que a agricultura e as jeiras "poderão ser solução ou parte dela para a crise e o desemprego é o jovem engenheiro do Ambiente, Artur Filipe Monteiro, que concilia o trabalho na Câmara com a "paixão" da lavoura.
Herdou terras que começaram a ser plantadas pelo avô e só da vinha conseguiu tirar, na última campanha, o equivalente a metade do que ganha durante um ano um engenheiro.
"Não tenho qualquer problema em sujar as mãos", diz o jovem engenheiro/agricultor para quem é necessário "ultrapassar preconceitos para perceber que regressar à agricultura não é rebaixar-se".
 
[Fotos Lusa e Arquivo]
 
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CRISE/AGRICULTURA: Quem quiser trabalhar à jeira não passa fome em Trás-os-Montes