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segunda-feira, 27 de outubro de 2008          
 
    As chegas de bois que se realizam periodicamente em Montalegre atraem milhares de pessoas e são um espectáculo mais apreciado do que um jogo de futebol.
    As chegas de bois são uma tradição já muito antiga em alguns concelhos de Trás-os-Montes, mas é em Montalegre onde tem mais expressão.
    David Teixeira, director do Ecomuseu do Barroso, disse que as chegas de bois continuam a ser um “desporto de massa” em Montalegre.

    “Chegamos a ter três a quatro mil pessoas a assistir a uma chega. Não há nenhum jogo de futebol que junte tanta gente”, afirmou o responsável, que falava à margem do congresso internacional “Combates de Animais”, que decorreu em Montalegre.

    Apesar de os últimos anos terem ditado praticamente o fim do “Boi do Povo”, David Teixeira referiu que as pessoas continuam a “identificar-se com o boi da sua aldeia”.

    O “Boi do Povo” era um animal comunitário, tratado e alimentado por toda uma comunidade, que depois representava essa aldeia nas chegas de bois.

    José Martins, produtor da aldeia de Paredes, concelho de Montalegre, está já a preparar o seu “Barroso” para o próximo campeonato de chegas de bois, que a autarquia e a Associação Etnográfica “O Boi do Povo” realizam anualmente.

    “Agora estou a treiná-lo com outros bois, alimentá-lo para ganhar corpo e ambientá-lo aos automóveis para depois não se assustar”, explicou à Lusa.

    Com 39 anos, este produtor diz que sempre se lembra de ver as chegas de bois um pouco por todo o concelho.

    Hoje, José Martins diz que as chegas “são uma paixão”, com as quais até ganha algum dinheiro. É que até já conseguiu ficar duas vezes em segundo lugar no campeonato.

    O professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Humberto Martins considera que as chegas são o “epílogo de uma longa relação quotidiana” entre as populações do Barroso e os seus animais.

    Um costume ancestral que se vai repetindo, embora em moldes diferentes.

    É que, segundo acrescentou, aquilo que era uma celebração colectiva do povo transformou-se num grande negócio.

    Actualmente a maior parte dos bois existentes no Barroso pertencem a privados, existindo apenas, segundo disse o David Teixeira, “dois ou três” bois comunitários nesta região.

    Para o antropólogo João Sardinha, a emigração em massa nos meados do século XX esvaziou as aldeias do Barroso e levaram ao fim do boi do povo,

    No entanto, acrescentou, são hoje esses emigrantes que mantêm as chegas quando regressam à terra natal, chegando a pagar "por uma viagem às origens".

    As raízes do "Boi do Povo" e das chegas não estão perfeitamente definidas mas, segundo o antropólogo, já no paleolítico se acreditava que os bois eram "animais de combate, fortemente armados e que se envolviam em lutas ferozes".

    O antropólogo referiu que ainda hoje na Coreia se realizam estes combates em estádios onde cabem milhares de pessoas e até há um canal televisivo especializado nestas lutas entre animais.

    João Sardinha diz que as chegas "evoluíram" na forma como são realizadas actualmente e que os interesses que nelas se articulam também mudaram.

    "Hoje os confrontos entre os bois realizam-se num campo delimitado, até têm direito a um relatador e os bois pertencem a privados", frisou.

    Acrescentando que antigamente as comunidades "eram intervenientes activas" nas chegas e agora as pessoas "são apenas espectadores passivos".

    "O ritual transformou-se num espectáculo", concluiu.

 
 
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MONTALEGRE: Chegas de bois continuam a atrair milhares no Barroso