Os sabores selvagens da Amazónia uniram-se hoje à tradição do Douro, num momento único de cozinha protagonizado pelo chefe Rui Paula e pelo brasileiro Ofir Oliveira que apostam na introdução de produtos autóctones na gastronomia sofisticada. A iniciativa inédita partiu do D.O.C, o restaurante de Rui Paula, espaço que navega sobre as águas do rio Douro, na Folgosa, e que se situa no meio de vinhas em socalcos. Esta foi também a oportunidade de Ofir Oliveira vir pela primeira vez a Portugal com a missão de divulgar não só a gastronomia indígena da Amazónia, mas também apelar à preservação desta floresta, de onde provêem muitos dos produtos utilizados pelo cozinheiro brasileiro, como as frutas cucuaçu, taperebá ou a castanha do Pará.
"Nós trabalhamos com os produtos originais", afirmou Ofir Oliveira à Agência Lusa. O cozinheiro trouxe ainda para Portugal as farinhas de paracui ou de peixe, feitas através do acari-bobó ou do tamuata, a farinha de água e a de tapioca, acondicionada no paneiro, aquela que, segundo Ofir, é a "primeira embalagem a vácuo que o mundo produziu".
A farinha é envolta em folha de guarumá, um arbusto que nasce junto aos rios, cujos talos servem para produzir os artefactos que a acondicionam e constituem o paneiro.
Na cozinha do D.O.C misturaram-se duas gastronomias ligadas à tradição, às origens e à terra. O ingrediente principal do menu preparado pelos dos dois chefes foi mesmo a criatividade e a surpresa.
A troca de ideias entre Ofir Oliveira e Rui Paula levou à confecção de um frango com cucuaçu, o primeiro prato de um total de seis, a que juntaram ainda canela, cravinho e gengibre.
"Queremos proporcionar uma viagem de sabores recriando a rota dos descobrimentos que os portugueses efectuaram ligando o Brasil e o Oriente", salientou Rui Paula.
Aos produtos da Amazónia, o chefe português juntou a couve troncha, carne e peixe, alheira, chamuça de alheira e o azeite da região.
E porque o palco para este encontro é o Douro, à mesa do D.O.C não poderiam falar os vinhos produzidos na mais antiga região demarcada do mundo.
A fusão da cozinha da Amazónia com a do Douro serve de mote para o lançamento do livro "Rui Paula - Uma cozinha no Douro", no qual o cozinheiro propõe um "novo receituário, moderno, cosmopolita e internacional, mas com uma forte ancoragem nos produtos portugueses, nas memórias e sabores antigos".
O primeiro livro de Rui Paula foi lançado no mercado pela editora QuidNovi, conta com a autoria de Celeste Pereira (textos) e Nelson Garrido (fotos), e caminha já para uma segunda edição.
O cozinheiro português aposta na apresentação de pratos elaborados mas em que valoriza o produto, procurando realçar o seu sabor.
A mesma linha de pensamento seguida por Ofir Oliveira.
"A nossa proposta é dar a conhecer ao mundo uma cozinha sofisticada e que vem da natureza. Através disso, nós falamos da cultura e da preservação do meio ambiente", salientou o chefe brasileiro.
É que, conforme alertou Ofir Oliveira, se a floresta amazónica não for preservada, o mundo "não virá a tempo de conhecer os sabores que ela oferece".
Ofir Oliveira é membro da organização internacional Slow Food, um movimento que foi fundado como uma associação enogastronómica (de vinhos e alimentação) pelo activista alimentar Carlo Petrini na pequena cidade de Bra, situada no norte da Itália, em 1986.
O seu objectivo inicial era o de apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronómico e um ritmo de vida mais lento e, mais tarde, a iniciativa foi ampliada para abranger a qualidade de vida e, como consequência lógica, a própria sobrevivência do planeta em que vivemos.
A Slow Food possui actualmente cerca de 85.000 associados em 132 países.
Texto de Paula Lima e Fotos de Pedro Colaço, da Agência Lusa
DOURO: Sabores selvagens da Amazónia juntam-se aos tradicionais do Douro