O escritor António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, assevera que escrever é a sua "razão de viver", "alegria", "sina", "escolha" mas diz-se "assombrado" com pessoas que escrevem livros em dois meses.
"Escrever é a minha razão de viver, a minha alegria, a minha sina, o que eu escolhi quando tinha 5 anos", disse o autor de "Memória de Elefante (1979) e "Fado Alexandrino".
Lobo Antunes falava quarta-feira à noite, no seu regresso ao "Café com Letras", iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras, para falar do seu novo romance "O Arquipélago da Insónia" publicado este mês pela Dom Quixote e cuja escrita coincidiu com a sua doença.
Perante uma plateia de várias dezenas de leitores e admiradores da sua obra concentrados no auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, o moderador de serviço, Carlos Vaz Marques, jornalista da rádio TSF, teve muita dificuldade em levar Lobo Antunes a esmiuçar este seu novo livro, passado num ambiente rural e "interrompido pela sua doença".
"Tinha pena de não poder acabar este livro", recorda Lobo Antunes, aludindo ao período em que esteve hospitalizado devido a um cancro.
Para quebrar o "gelo" inicial, o escritor, que foi recentemente distinguido com o Prémio Literário Juan Rulfo, um dos mais importantes galardões da literatura latino-americana, pela primeira vez atribuído a um autor português, elogiou a arte de entrevistar do moderador e exclamou. suscitando os risos da assistência: "Se ele (Carlos Vaz Marques) fosse mulher levava-me".
"Fico assombrado com pessoas que escrevem livros em dois meses", admitiu, contrapondo os nove meses que levou a escrever o "Arquipélago da Insónia: "Eu sou lento, demoro muito tempo".
"E não gosto de livros fáceis, como as mulheres fáceis que nos piscam o olho", remata logo a seguir.
O autor de "Os Cus de Judas" não quer ser lido pelas senhoras que compram revistas nos quiosques mas depressa se contradiz: "Escrevo para as pessoas do meu País", acrescentando que cada vez "gosta mais de Portugal".
Um Portugal, "onde todos são escritores", desabafa Lobo Antunes, referindo-se em termos depreciativos ao recente livro do jornalista José Rodrigues dos Santos, "A Vida num Sopro": "Uma grande m….", no seu entender.
A Lobo Antunes, interessa falar das coisas "para as quais não existem palavras", "entrar no coração do coração", porque a Literatura "é uma forma de pôr cá para fora as emoções".
E perante a assistência, adverte: "É preciso ter vivido para saber ler".
Bem-humorado, o escritor revela-se ao seu público com um "solitário" que trabalha actualmente 12 a 13 horas numa garagem, por cima de um bar de alterne na Rua Conde Redondo, "perto da PJ", sem telemóvel e computador e "com o dinheiro nos bolsos como os ciganos".
"É um emprego como outro qualquer", constata.
"Escrever é riscar e apagar".
"Literatura, a outra ´coisa´, é estar entre os homens e no meio deles".
Recentemente chegado dos Estados Unidos, Lobo Antunes não se escusou a comentar brevemente à Agência Lusa as próximas eleições presidenciais norte-americanas, considerando "problemática" a vitória do candidato presidencial democrata, Barack Obama, embora admita ficar "com muita pena" se ele não ganhar.
"Ficaria com muita pena se Obama não ganhasse mas acho problemático porque a maioria dos indecisos vai decidir-se pelos republicanos", observou.
Confessa que o candidato republicano, John McCain, o surpreendeu: "É um homem mais inteligente do que eu pensava". Talvez não tenha sido feliz com a escolha da vice candidata (a governadora do Alasca, Sarah Palin).
Lobo Antunes acha "impossível" dizer quem vai ganhar "porque há muitas Américas", não é como em Portugal ou França.