Não é fácil conversar sobre livros, sobretudo quando se é leitor impenitente e compulsivo, como é o meu caso. Não quero imaginar como seria o meu mundo sem o livro, a minha pequena biblioteca, o meu santuário privado, onde, por minha conta e risco, procedo a viagens fantásticas, encontro refrigério pela alma, desassossego para o espírito, tsunami para o conhecimento. Neste caso de uma conversa que convença definitivamente os cépticos da importância do livro, recorro a dois devotos do prazer dos livros que nos legaram obras-primas do elogio à fé dessas páginas impressas que fazem do silêncio a subversão das nossas vidas: “Livros de mais”, por Gabriel Zaid, (Temas e Debates, 2009) e “No Bosque do Espelho”, por Alberto Manguel (Publicações Dom Quixote, 2009).
Zaid começa por nos provocar distinguindo os que querem ser culto dos que são verdadeiramente cultos: os primeiros, atordoam-se ante a imensidade de tudo o que não leram e compram algo que lhes recomendaram: os segundos, são capazes de ter em casa milhares de livros que não leram, sem deixarem de continuar a comprar mais. Os livros que nos rodeiam fazem parte da intenção do nosso futuro, tal como o nosso estado de saúde, é este papel mudo que nos fala sobre o dia de amanhã, dando pelo nome de dicionários, livros de arte, de cozinha, obras completas, roteiros que compramos para as viagens. Este papel é tão valioso como os cartões de crédito.
Já anunciaram mil vezes a morte do livro, e nunca se publicou tanto como hoje. Se tivéssemos em conta o que se publica e o que conseguimos ler, vivíamos permanentemente frustrados, com sentimento de incultura. Ora o importante é como nos sentimos depois de ler. Acontece que ler é barato, é portátil, permite a diversidade e não é por acaso que só em ditadura é que há livros proibidos. Tudo isto parece em lugares comuns, mas é um óbvio que esquecemos facilmente: a inteligência, a experiência, a vida criativa desenvolvem-se reproduzem-se através da palavra viva. A letra morta não é um mal das letras mas da vida. Há muita letra morta na conversação, nas palavras e nos actos da vida quotidiana. A cultura é conversação, a animação do nosso modo do viver é ditada pelas nossas leituras. A tal propósito, Gabriel Zaid questiona que nada é simplesmente mercadoria, os livros são-no mas só parcialmente, nada se paga sobre o seu efeito transformador nas nossas vidas: somos o produto de leituras que nos levaram a agir, do que vimos, do que confrontamos, do que aprendemos dentro e fora da leitura. E há outra coisa: a embriaguez, o fascínio de manusear o livro, com ou sem ilustrações, em edição de luxo ou de bolso. Apesar das fusões e concentrações, perdura o mistério que leva à diversidade dos editores: as preferências são múltiplas, a diversidade está assegurada. Se o título é “Livros de mais”, o que Gabriel Zaid nos transmite como mensagem é que haverá sempre livros de menos tal a garantia de que a nossa curiosidade será sempre insaciável.
Alberto Manguel escreve a sua apologia noutro registo. Arranca desta forma: “Para mim, são as palavras de uma página o que dá coerência ao mundo...o que permanece invariável é o prazer da leitura, de segurar um livro nas minhas mãos e subitamente sentir essa maravilha peculiar, esse reconhecimento, esse arrepio ou esse aconchego que um conjunto de palavras por vezes evoca sem razão que se entenda”. E lembra-nos algo de primário que muitas vezes refutamos ou contrariamos: ao longo da vida lemos a mesma obra de maneiras diferentes: “Um livro torna-se um livro diferente de cada vez que o lemos”. Isso passa-se com Alice no país das maravilhas ou com a Odisseia ou Pinóquio. Este é o peso da nossa liberdade: ler de maneira diferente, responder pelo modo de assimilarmos as palavras registadas. Porque os livros que lemos, conscientemente ou não, ajudam-nos a nomear sentimentos, objectos, sons, iluminações. Aprendemos nos livros a perceber os nossos preconceitos e os preconceitos alheios, a perceber como se forma a nossa identidade, a perceber a diferença radical entre a pornografia (que é reaccionária) e o erotismo (que é subversivo). Os livros sobre os outros podem ser um ensinamento riquíssimo porque há escritores ou personalidades históricas exaltantes: Jorge Luís Borges, Che Guevara, Julio Cortázar tiveram vidas tão poderosas e paradigmáticas que ultrapassam o que escreveram ou fizeram.
Alberto Manguel conta histórias sobre o mundo dos livros e os seus artífices: o que é a literatura de denúncia e protesto, o pesadelo ou a entrada no paraíso que pode ser uma tradução, as alegrias e as decepções dos editores, as obras-primas que foram recusadas, porque é que conhecer um escritor, conviver com ele pode ser uma decepção ou viragem das nossas vidas, de que modo os livros nos podem ensinar a sair das longas noites de injustiça, a perceber o ódio e a vingança ou gostarmos de receber um influxo de felicidade e de fé. “No Bosque do Espelho” é uma das mais exaltantes confissões que alguém escreveu sobre o prazer de ler, é uma história pessoal, uma pujante reflexão sobre as delícias e responsabilidades da leitura – tudo parte da curiosidade de um homem que vive rodeado de 35 mil livros, sente satisfação em partilhar connosco a sua curiosidade insaciável e a uma extraordinária abrangência da percepção do mundo. Percebe-se muito bem o que ele nos quer dizer quando escreve à guisa de despedida: “Como todos os leitores sabem, a questão, a qualidade essencial do acto da leitura, agora e sempre, é que ela não tende para um fim previsível, é que não tende para uma conclusão. Cada leitura prolonga outra, começada numa tarde qualquer há mil anos e da qual não sabemos nada; cada leitura projecta a sua sombra sobre a página seguinte, atribuindo-lhe conteúdo e contexto. Deste modo, a história cresce, camada após camada, como a pele da sociedade cuja história é preservada por este acto”.
Que deliciosa surpresa, estas duas obras-primas que viajam à superfície e nos subterrâneos do banquete cultural que a leitura desencadeia.