Foi o encerramento, por motivo de obras, do Departamento de Artes Decorativas do Museu do Louvre, que possibilitou a realização desta mostra do neoclassicismo francês que está patente na Gulbenkian até 4 de Maio. A mostra é de altíssimo interesse e tem uma museografia da mais elevada qualidade. Na verdade, o visitante tem à sua disposição 126 obras, entre esculturas, pinturas, gravuras, porcelanas orientais e de Sèvres, bronzes, peças de mobiliário e de ourivesaria, exibindo as artes decorativas francesas executadas entre 1750 e 1775, tudo exibido numa comunicação invejável, com a luz certa, com o diálogo apropriado, aproveitando toda a beleza envolvente dos jardins Gulbenkian. O que se pode visitar bem em duas horas convida a regressar e a rever, pois a segunda visita (ou mesmo a terceira) assegura melhor compreensão, tal a inteligência do diálogo estabelecido entre os objectos e as áreas temáticas.
A mostra desta exposição na Gulbenkian fala por si: o gosto “à grega” faz parte de um movimento estético iniciado em meados do século XVIII que se prolongará até meados do século XIX, apoiando-se nos modelos artísticos da Antiguidade. O excessivo, que era patente no estilo rococó, foi então decretado como fora de moda e ultrapassado pela preocupação dos cânones da beleza grega. Recorde-se o papel que tiveram as descobertas arqueológicas das cidades de Herculano (1738) e Pompeia (1748) que suscitaram imenso interesse e abriram as portas a esta nova expressão de arte, em França e noutros países.
O que o visitante tem ao seu dispor compreende três blocos temáticos distintos: o papel de uma elite social e intelectual que funcionou como precursora do gosto “à grega”; o crescente predomínio de um novo estilo na arquitectura, escultura, gravura, artes decorativas e pintura, através do uso de uma gramática inspirada nos diferentes modelos gregos; e a exibição de um núcleo de obras de arquitectura que pesaram na afirmação e consagração deste gosto. Em suma, o visitante toma conhecimento ou confirma o papel desempenhado por personalidades como o Duque de Choiseul ou Madame de Pompadour na consagração do gosto “à grega”, que foi fomentado por figuras de Estado, intelectuais, coleccionadores estimulados pelas viagens, frequentadores dos salões culturais, possuidores de cabinets d’art; pode, em consequência, ver um significativo repertório de artes decorativas com os motivos de estilo: frisos de ondas, grinaldas de folhas de loureiro, pilastras, colunas e capitéis, ramos de oliveira ou folhas de acanto, entre outros; à belas gravuras ornamentais, mobiliário e bronzes dourados, ourivesaria, porcelana de Sèvres, pintura, sobretudo. 
Como sempre, a Fundação Calouste Gulbenkian edita catálogos para estudar e aprofundar as matérias da exposição. Este catálogo sobre o neoclassicismo é uma preciosidade. Os especialistas abordam a introdução no mundo da arte do gosto “à grega”, obras primas do mobiliário, arquitectura francesa em modelo grego, na pintura e na escultura bem como nas artes decorativas. É o registo de opiniões fundamentadas sobre a rejeição do rococó através do regresso à simplicidade da Antiguidade, fenómeno que se consolidou em França mas que a Inglaterra e a Alemanha não foram alheias. Os autores referem o inicio da arqueologia científica e o papel desempenhado por Winckelmann e a atracção que os temas clássicos tiveram na própria música como nas peças de Jean Philippe Rameau e nas óperas de Gluck, caso de Orfeu e Eurídice e Ifigénia em Táurida. São analisados os conjuntos de mobiliário “à grega” do museu do Louvre, de valor excepcional pelas suas proporções e pela sua riqueza. Um investigador português passa em revista a diplomacia e a cultura nas relações entre Portugal e França no período em apreço, destacando as afinidades culturais e a notória influência dos modelos políticos franceses nos reinados de D. João V e D. José. A arquitectura francesa e o modelo grego são demoradamente estudados e compreendidos pelas proclamações dos publicistas, historiadores e viajantes, pelos trabalhos arqueológicos efectuados no século XVII e XVIII, etc. Em catálogo, são apresentadas as peças da mostra, muito bem documentadas. A não perder, para quem estuda ou aprecia o neoclassicismo.